“A Caixa financia 95% do imóvel de leilão” é a frase que mais circula sobre o assunto, e ela está incompleta nos dois lugares que importam: 95% de quê, e o que fica de fora. Quem erra a primeira resposta erra a entrada. Quem erra a segunda descobre, depois do lance, que precisava de muito mais dinheiro do que imaginava. Este artigo separa as duas contas.

Os 95% são do lance ou da avaliação?

Do lance, com um segundo limite por cima. Na regra que o livro adota, a Caixa limita o crédito por dois números ao mesmo tempo: até 95% do lance e até 90% do valor de avaliação no sistema SAC (80% no sistema Price). Vale o menor dos dois (livro, cap. 14; nota Cota de 90 por cento da Avaliação).

A confusão nasce porque a regra dos 90% fala em avaliação, e a avaliação costuma aparecer no anúncio como “valor do imóvel”. Quem lê “95% do imóvel” e aplica sobre a avaliação acha que vai sair de casa sem pôr nada. Quem aplica 90% sobre o lance acha que precisa de 10% de entrada. Os dois estão errados.

A fonte do acervo que explica a regra é correspondente da Caixa e vende mentoria sobre crédito em leilão; outra fonte, também de quem ensina leilão como negócio, mostra o mesmo mecanismo na prática sem citá-lo (nota Cota de 90 por cento da Avaliação). Não localizamos o normativo público da Caixa que a sustenta.

Como calcular a entrada?

Três passos, com números redondos e fictícios (livro, cap. 14):

  1. Teto pela avaliação: avaliação de R$ 400 mil × 90% = R$ 360 mil.
  2. Teto pelo lance: lance de R$ 200 mil × 95% = R$ 190 mil.
  3. Financiamento = o menor dos dois: R$ 190 mil. Entrada = lance − financiamento = R$ 10 mil, 5% do lance.

Como o lance de leilão costuma ficar bem abaixo da avaliação, o limite que aperta quase sempre é o do lance (cap. 14). Mas nem sempre. Quando o lance chega perto da avaliação, a conta vira. Um exemplo nosso, também fictício:

  • Avaliação de R$ 250 mil × 90% = R$ 225 mil.
  • Lance de R$ 240 mil × 95% = R$ 228 mil.
  • Vale o menor: R$ 225 mil financiados. Entrada de R$ 15 mil, cerca de 6,3% do lance.

No mesmo lote, pelo sistema Price, o teto cai para 80% da avaliação, R$ 200 mil, e a entrada sobe para R$ 40 mil. A escolha do sistema de amortização mexe na entrada, não só na parcela.

Teste rápido: a entrada fica em 5% do lance enquanto 90% da avaliação for maior ou igual a 95% do lance, ou seja, enquanto o lance não passar de cerca de 94,7% da avaliação (conta nossa sobre a regra do cap. 14).

E a avaliação, pode enganar essa conta?

Pode, e para os dois lados. A avaliação é o número que o engenheiro do banco atribuiu, não o preço de mercado; há registro de laudos acima e abaixo do mercado, sem padrão previsível (nota Valor de Avaliação não é Valor de Mercado). Para o financiamento, ela só define o teto. Para a sua viabilidade, ela não serve como valor de venda: esse você levanta com pesquisa na região.

Quanto sai do bolso, afinal?

A entrada é a menor parte. Na compra financiada, do lance saem só a entrada e as parcelas dos meses em que o imóvel é seu; o saldo devedor é quitado na venda, com o dinheiro do comprador (livro, cap. 14). Todo o resto sai do bolso como na compra à vista:

  • Comissão do leiloeiro, usualmente 5% do lance, quando a venda acontece no site do leiloeiro (livro, cap. 7).
  • ITBI e registro, que variam por município e por estado (livro, cap. 7).
  • Dívidas do imóvel que o edital transfere ao comprador (livro, cap. 8), desocupação e reforma.
  • Carregamento: condomínio e IPTU de cada mês até a venda (livro, cap. 12).

No caso fictício que o livro calcula inteiro, com lance de R$ 200 mil, a compra à vista pede R$ 264 mil do bolso; a financiada, R$ 97,3 mil. Dos R$ 97,3 mil, a entrada é R$ 10 mil. As parcelas de dez meses somam cerca de R$ 23,3 mil, e os demais custos, R$ 64 mil, são os mesmos nas duas colunas (livro, cap. 28). Quem planeja só a entrada planeja pouco mais de um décimo do dinheiro que vai precisar.

E a documentação dentro do financiamento? Uma fonte do acervo, de quem ensina leilão como negócio, afirma que a Caixa permite somar ao contrato mais 5% para ITBI e cartório. Nenhuma fonte mostra contrato ou simulação oficial que confirme (nota Documentação Embutida no Financiamento). Mesmo que valha, é dívida: vira juros nos meses do ciclo. Não conte com ela antes de ver no seu contrato.

Todo imóvel da Caixa aceita financiamento?

Não. Só os lotes marcados como “permite financiamento”, e a Caixa liga e desliga essa marca lote a lote, a qualquer momento (nota Aprovar o Crédito Antes do Lance). Uma fonte, também de quem ensina leilão, registra que a fração de lotes financiáveis encolheu muito (nota Mudanças da Caixa Elevaram a Barreira de Entrada, fonte única).

E há uma regra de fora: leilão judicial, em regra, não financia. Parcela pelo que a lei permite, ou é à vista. Financiamento bancário é coisa do leilão extrajudicial, quando o edital permite (livro, cap. 17).

E se o banco negar o crédito depois do lance?

Custa caro. O edital costuma prever multa da ordem de 5% do lance para quem arremata contando com financiamento e tem o crédito negado (livro, cap. 14; nota Aprovar o Crédito Antes do Lance, fonte única). “Permite financiamento” quer dizer que o imóvel é elegível, não que o banco é obrigado a emprestar para você. A análise pede renda comprovada, e a ordem certa é uma só: crédito pré-aprovado, por escrito, antes do lance (livro, cap. 14).

Outros bancos também financiam 95%?

No levantamento do acervo, não. Com condições de março de 2025, de uma única fonte que vende mentoria de leilão: BRB até 90%, Santander até 80%, Inter até 50%. A Caixa aparecia com juros aproximados de 9% a 10% ao ano e prazo de 420 meses (nota Bancos que Financiam a Arrematação; livro, cap. 17). Nos outros bancos, pergunte se a base é o lance ou a avaliação, porque muda a entrada (cap. 17). Há bancos que leiloam só à vista.

Onde isso entra na conta

O financiamento muda duas linhas da viabilidade: troca o lance pela entrada mais as parcelas do ciclo, e tira o saldo devedor do valor da venda. O livro Antes do Martelo explica os dois limites da cota no capítulo 14, compara os credores no capítulo 17 e calcula a mesma operação à vista e financiada no capítulo 28, incluindo quanto tempo você aguenta pagando parcela sem vender. Conheça o livro.

O que este artigo não sabe

  • Não localizamos o normativo público da Caixa com a cota de 90% da avaliação e o limite de 95% do lance. A regra vem de uma correspondente que vende mentoria, corroborada na prática por outra fonte do mesmo mercado.
  • Há relato de financiamento acima de 99% do lance, num lote com deságio grande, que não cabe no limite de 95%. O livro registra a divergência e não a resolve (cap. 14). Na dúvida, vale o simulador e a proposta da Caixa para aquele lote.
  • Juros, cotas e prazos mudam sem aviso. Os números dos bancos são de março de 2025 e de uma fonte só.
  • Não sabemos se a documentação pode mesmo entrar no contrato, em que produto e com que custo.
  • Este artigo não é orientação financeira nem jurídica. Antes de dar lance financiado, confirme as condições do dia com o banco e leia o edital do lote.