Quase todo risco de leilão de carros aparece depois do arremate: o reparo maior que o previsto, a taxa que ninguém somou, o carro que demora a vender. Este é diferente. O golpe do site clonado de leiloeiro acontece antes do leilão, quando nem existe lote, e costuma levar o dinheiro inteiro. Os operadores que estudamos o tratam como o risco número um de quem está começando em veículos (notas Leilão de Automóveis - Hub e Leilão de Automóveis - Análise Trivium). A defesa não custa nada, desde que venha na ordem certa: conferir primeiro, pagar depois.
Como funciona o golpe do site clonado?
Alguém copia o site de um leiloeiro real, com a mesma cara, o mesmo logotipo e a mesma lista de lotes, e o publica num endereço parecido. A vítima encontra esse endereço, dá o “lance”, recebe a notícia de que ganhou e paga, em geral por Pix. O site some, ou continua no ar esperando a próxima pessoa. Como o lote nunca esteve à venda ali, não há carro para retirar nem leiloeiro a quem reclamar (nota Golpe do Site Clonado de Leiloeiro; livro Antes do Martelo, capítulo 18).
Um operador que vende curso de leilão de carros conta que recebe, toda semana, gente que já pagou. Ele descreve um padrão de comportamento que se repete: a pessoa achou o que parecia uma fonte boa, ficou quieta para não dividir a oportunidade, pagou, e só depois foi perguntar a alguém (nota Golpe do Site Clonado de Leiloeiro, fonte Leilão de Carros Como Funciona). O relato é dele e não traz contagem; o padrão, porém, é o mesmo que o livro do Teto do Lance descreve para imóveis.
Por onde o golpe chega até você?
Um segundo operador, independente do primeiro e que também vende treinamento, aponta três portas de entrada (nota Golpe do Site Clonado de Leiloeiro, fonte Como Funciona o Leilão de Carro e Moto):
- O site clonado, achado por busca no navegador;
- A negociação por mensagem, em aplicativo ou rede social, oferecendo um carro “de leilão” fora do pregão;
- O anúncio patrocinado falso, que aparece acima dos resultados da busca e leva direto ao clone.
As três têm em comum o fato de que é o golpe que encontra você, e não você que encontra o leiloeiro por um caminho que já conferiu.
Por que é mais fácil cair nisso com carro do que com imóvel da Caixa?
Porque no imóvel da Caixa existe um ponto central para conferir. Os sites que reúnem os imóveis do banco apenas mostram o estoque e mandam o comprador para a página oficial da Caixa na hora da proposta; um site que diz vender imóvel da Caixa por conta própria já é sinal de alerta (nota Garimpo via Agregadores, fonte única).
Em veículos não há esse centro. Os lotes vêm de financeira, seguradora, frota de empresa e órgão público, cada um com seu leiloeiro e seu site (nota Modalidades de Leilão de Veículos por Origem). Segundo o primeiro operador, são cerca de 850 leiloeiros oficiais no país. O número é dele, não de um cadastro que tenhamos conferido, e as listas de sites por estado que circulam no nicho são, no caso dele, produto do próprio curso (fonte Leilão de Carros Como Funciona). O ponto que interessa não depende da contagem exata: são centenas de endereços, e nenhum deles é “o” site de referência.
Como conferir se o site do leiloeiro é verdadeiro?
A rotina abaixo é a nossa reescrita do que as fontes e o livro recomendam. Faça tudo antes de se cadastrar para dar lance, e de novo antes de qualquer pagamento.
- Chegue ao leiloeiro pelo site de quem vende o bem. Se o lote é de um banco, de uma seguradora ou de um órgão público, parta do site dessa instituição e siga o link que ela indica. Evite a busca no navegador, o anúncio patrocinado e o link recebido por mensagem (livro, capítulo 18).
- Leia o endereço inteiro. O primeiro operador afirma que de 95% a 99% dos sites oficiais de leiloeiro terminam em
.com.br, e que os clones usam.com,.com/bre variações parecidas. O percentual é estimativa dele, não medição; o livro usa a forma prudente: domínio fora de.com.bré sinal de alerta, não prova (nota Golpe do Site Clonado de Leiloeiro; livro, capítulo 18). - Confira o registro do leiloeiro. Todo leiloeiro oficial é inscrito na Junta Comercial de um estado, e a lista da Junta é pública (nota Golpe do Site Clonado de Leiloeiro, pergunta fechada com o FAQ do site Vivendo de Leilão, que é de uma operadora de imóveis que vende curso). Guarde o registro que você achou: a síntese do acervo pede artefato, não lembrança, para dizer que conferiu (nota Leilão de Automóveis - Análise Trivium).
- Confira se o pagamento segue o fluxo do leiloeiro. Pressa, preço bom demais e pedido de pagamento fora do caminho descrito no edital são os sinais que a nota lista (nota Golpe do Site Clonado de Leiloeiro).
- Pergunte a alguém antes de pagar. É a inversão do padrão do golpeado: validar com outra pessoa antes do Pix, não depois.
Leiloeiro negocia carro por WhatsApp?
Não. O segundo operador trata isso como regra sem exceção: leilão não negocia veículo por mensagem. Carro oferecido por aplicativo ou rede social como “de leilão”, fora do pregão, com dia e hora marcados, é golpe (nota Golpe do Site Clonado de Leiloeiro; fonte Como Funciona o Leilão de Carro e Moto; livro, capítulo 18). A mesma fonte lembra outra confusão comum, a de achar que venda direta e leilão são a mesma coisa. Não são, e isso não muda a regra: nenhum dos dois acontece numa conversa privada.
Ver o carro no pátio prova que o site é legítimo?
Não, e esta é a versão mais perigosa do golpe. O segundo operador relata um caso que presenciou num pátio: o site falso indicava o endereço de um pátio verdadeiro, a vítima foi até lá, viu os carros reais e concluiu que o site era sério (nota Golpe do Site Clonado de Leiloeiro). O livro resume assim: ver o bem não valida quem está vendendo (capítulo 18). O que valida é o caminho até o leiloeiro e o registro dele, conferidos antes.
Onde isso entra na conta
Em nenhuma linha, e é por isso que ele é perigoso. A conta do lance (âncora de saída, reparo, taxas, custos fixos, margem) supõe que o leiloeiro existe. O golpe apaga a conta inteira antes do primeiro número. Por isso a conferência do site vem antes de abrir a planilha. O livro de automóveis do Teto do Lance está em preparação (em breve, em /ebooks/automoveis/). O livro de imóveis já trata desse golpe no capítulo sobre o que pode dar errado, ao lado dos riscos que cabem na conta. Conheça o livro.
O que este artigo não sabe
- Não sabemos quantas pessoas caem nesse golpe nem quanto perdem. O acervo não tem nenhuma medição de volume; os relatos são de operadores.
- Não conferimos o percentual de sites em
.com.brnem a contagem de leiloeiros oficiais. Os dois números são de um operador que vende curso. - Não sabemos como cada Junta Comercial publica a sua lista, nem se todas permitem a consulta pela internet.
- Não sabemos se há como recuperar o dinheiro depois do pagamento, por via bancária ou judicial. A nota do acervo trata o golpe como perda total; não verificamos essa afirmação com fonte jurídica.
- Não temos uma lista oficial própria de sites de leiloeiros para indicar aqui.
- Este artigo não é orientação jurídica. Se você já pagou, procure o seu banco e um advogado.



